quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Histórias de nossas vidas juntas

Oi filhão,

Ta sendo muito difícil pra eu escrever. Faz tempo que não escrevo e agora não é por falta de tempo. Na maioria dos meus dias trabalho e estudo pouco e não preciso mais voltar pra casa correndo, pois além das "cosias de casa" não tenho mais nada pra fazer. A cidade aqui é linda e tem muitos lugares pra conhecer. Isso me distrai as vezes sim e eu gosto, mas pra mim, Lisboa perdeu um pouco do sentido sem você aqui.

Escrevo essas cartas pra mostrar pra você a minha versão de algumas coisas que vivemos e também pra eu me lembrar de como você é feliz e me faz feliz. Do quanto você é importante pra mim.

Hoje fazem cinco meses que vocês foram embora daqui, voltaram pro Brasil. Eu, aqui, já estou decidido a voltar pro Brasil assim que possível. Estou aqui pelo doutorado e vou fazê-lo, mas tento e planejo voltar o mais rápido possivel para viver perto de você e voltar a conviver com a pessoa que mais me importa na vida, você!

Portanto, não tenho muitas histórias atuais nossas pra te contar, mas tenho sim histórias. Quero te contar algumas histórias sobre os meses de nossa vida aqui em Portugal e outras histórias que ainda não registrei.

Vou começar pela história do Piangers em Lisboa...

Piangers é um escritor brasileiro que fala muito sobre filhos e família. Ele escreve muito bem e fala sobre o comportamento de suas duas filhas e de como é importante ser pai. Ele escreveu um livro de histórias que chama "Papai é pop", entre outros muitos textos pro facebook (não sei se ainda vai existir essa rede social quando você ler isso...). O legal é que logo que comecei a escrever pra você eu descobri os textos dele. Sua mãe gosta muito dos textos dele também, ela é uma fã, podemos dizer.

Aí, um dia vi que ele estaria em Lisboa pra uma palestra. Comentei com sua mãe e decidimos ir lá assistir.  A palestra foi em um auditório de uma faculdade de Lisboa. Chegamos cedo e teriam várias palestras pra ver sobre educação infantil.
Nessa época você tinha uma energia enorme! Brincávamos o dia todo sem reclamar de cansaço, mesmo cansados. Tínhamos o super poder de nunca nos cansar, como você sempre dizia. Então, ao voltar pra faculdade você discrubriu que subir as rampas de acesso ao terceiro andar correndo era muito divertido. Subiu e desceu as rampas até o terceiro andar correndo e rindo muito por várias vezes, e eu sempre atrás de você com medo de você cair de la de cima, pois os parapeitos das rampas eram baixos e perigosos e eram realmente muito altas.
Chegando lá, vimos que teriam várias palestras e a do Piangers era a última. Palestra não é interessante pra crianças, então sua mãe ficou nas palestras e eu fui com você em um parquinho na praça e tomamos um picolé pra passar o tempo. Logo sua mãe ligou e falou que o Piangers estava lá conversando com as pessoas, que ele era muito simpático e que deviamos volar lá pra conhecê-lo. Assim fizemos. Ao voltar conhecemos a filha mais nova do Piangers a Aurora.

Ela é uma menina linda e simpática, um pouco mais velha que você  (tinha 6 anos mais ou menos) e estava brincando sozinha, pois não tinham muitas crianças ali. Logo, você puxou ela pra brincar de esconder e pegar. Assim, eu, você e a Aurora ficávamos correndo por todo o lado. Vocês dois não se desgrudaram, ficaram amigos. A faculdade era enorme e por algumas vezes íamos pra longe do local da palestra e a Aurora saia de perto dos pais dela. Eu achei um perigo e confesso que estranhei um pai tão presente e cuidadoso como o Piangers não ficar de olho na filha com tantos casos de sequestro e perigos que possam ter pra uma criança longe dos pais. Cheguei até a comentar isso com sua mãe.

Mas, eu estava de olho em você e também nela, não teria perigo algum, assim eu acreditava. Lá pelas tantas, após a palestra, começamos a brincar de esconder e correr com outras várias crianças que chegaram. As crianças correndo e eu tentando tirar fotos de você. Quando consegui uma foto boa quis mostrar pra sua mãe e me distraí. Por não mais que 20 segundos eu perdi você de vista. Comecei a te procurar, perguntei pras crianças onde você estava e ninguém sabia. Corri pra sua mãe e ela começou a chorar. Perdemos o Vini! que nervoso, que desespero!. Continuei te procurando e sua mãe avisou os seguranças da faculdade. Todos estavamos a te procurar. Ficamos uns 5 minutos sem te ver. Procurei nos elevadores, nas escadas, nas salas, nos banheiros e nada de te ver. Foi então que quase em desespero subi correndo as rampas e te encontrei no terceiro andar, fora de perigo e bem tranquilo,  me chamando e chamando a Aurora pra descer correndo. Ufa, Ufa. Que alívio!

No fim, tudo deu certo, mas me senti mal. Me senti mal por tirar o olho de você, por me preocupar tanto, por não ter conversado com você sobre o que fazer se você ficasse sozinho ou até por não ter proibido você de subir as rampas sozinho. Não sei... Só sei que não julgo mais os pais pela forma deles criarem os seis filhos, muito menos o Piangers...